Os tempos de pandemia tem sido difíceis, as mortes se somam no mundo e em nosso país, onde mais de 546 mil pessoas já perderam suas vidas, os desabrigados de seus empregos, os soterrados em dívidas e os que desenvolveram ou potencializaram distúrbios mentais neste país que já era, antes da pandemia, primeiro no mundo em casos de Transtorno de Ansiedade Generalizada, quinto em casos de Depressão e oitavo em incidências de suicídio, se somam aos que perderam entes queridos ou amigos, nesta caminhada por um turbilhão de más notícias e desesperança.
Apesar das dores, da angústia e do pessimismo desta longa jornada pandêmica, o momento se mostra de otimismo com o advento das vacinas e a chegada destas no braço das pessoas. Mesmo em nosso país, que tardiamente adquiriu imunizantes contra a COVID-19, estratégia cunhada em erros, omissões e o consequente aumento no número de mortes, já sentimos os efeitos da vacinação com a diminuição no número de casos e óbitos nos grupos priorizados e uma mudança no perfil deste evento sanitário. Se antes da vacinação a faixa etária mais atingida era a partir dos 65 anos, sendo mais intenso o binômio contágio/óbitos entre as pessoas de 70 a 79 anos, neste momento, a faixa etária mais atingida é abaixo dos 59 anos e conforme a vacinação se torne em massa, os indicadores levam a acreditar em uma redução global nos casos e nos óbitos. Portanto, a vacinação e seus resultados, que já começam a aparecer, estão gerando otimismo e isto é importante.
Este ambiente otimista gerado pela vacinação repercute em vários setores no Brasil. A perspectiva de uma vacinação mais rápida e massificada e a consequente retomada da economia repercutiu, já em 14/06 na queda de 1,13% na cotação do Dólar e vários outros indicadores sinalizam para uma retomada econômica que caminha passo a passo com o ritmo vacinal. Antes disso, em 24/05, o estudo “Barômetro COVID-19” apontava que 30% dos brasileiros já se sentiam confortáveis para viagens domésticas e 16% para ir ao exterior, tendo em conta que esta pesquisa foi aplicada em 11,5 mil pessoas de 21 países, entre 15 e 19 de abril, sendo feito um recorte para a situação do turismo. Importante enfatizar que boa parte dos países pesquisados estão em estágios mais avançados de vacinação que o nosso país. Segundo dois estudos da consultoria Kantar, desta mesma época, o avanço da vacinação contra a COVID-19 está proporcionando perspectivas de aquecimento nas atividades turísticas no Brasil e no mundo.
Em contraponto a isto, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em levantamento apresentado em 05 de julho, os brasileiros atingiram o maior índice de endividamento desde 2010, com 69,7% da população estando com seu crédito negativado. Na mesma ordem, 14,8 milhões de pessoas estão desempregadas. Portanto, dos mais de 211 milhões de brasileiros, algo em torno de 148 milhões estão inseridos em organismos de proteção ao crédito, com dívidas, boa parte delas de difícil quitação e consequentemente se posicionando como órfãos da economia.
Em situação de orfandade mais contundente estão as mais de 130.363 crianças brasileiras de até 17 anos que perderam seus pais por causa da COVID-19, entre março de 2020 e abril de 2021. Esta pesquisa foi publicada em 20 de julho na conceituada revista cientifica britânica The Lancet. Isto significa 2,4 órfãos para cada mil brasileiros menores de idade, a 4ª maior incidência entre 21 países estudados, sendo que em números absolutos o Brasil ocupa o 2º lugar nesta pesquisa. Este trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do Imperial College de Londres, da Universidade de Oxford no Reino Unido e de outras instituições mundialmente renomadas, somando 16 coautores e sendo coordenado por Susan Willis, do Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC). Este é o primeiro estudo global de orfandade causada pela pandemia.
São mais de 862 mil crianças órfãs em 21 países, identificados pela ocorrência de 77% das mortes globais por COVID-19 até 30 de abril de 2021. Esta pesquisa traz outras informações e identifica que mais de 1 milhão de menores perderam um dos pais ou o seu responsável.
O Brasil, segundo país em óbitos pela COVID-19, como não poderia deixar de ser, é bastante atingido pela orfandade de menores em função da pandemia. Isto implica que medidas governamentais precisam urgentemente ser implementadas para a proteção destas crianças, tanto no âmbito do reordenamento familiar ou na busca de um encaminhamento de responsabilidade e acolhimento familiar pela adoção, quanto no aspecto de proteção econômica e social de menores de baixa renda.
De outra medida, é preciso se entender que o otimismo com as vacinas e seus resultados é importante e justificável. Entretanto, as vacinas não protegem do contágio pelo SARS-COV2, atuam com eficiência, segurança e eficácia variável na evolução da doença para estágios mais graves, reduzindo de maneira exponencial a incidência de internações e de óbitos. Perante este entendimento é fundamental a manutenção do uso da máscara, das medidas de higiene e distanciamento social, assim como, que os governos se mantenham alertas, atuantes nas ações de governança desta crise e no monitoramento de novas cepas virais, como a preocupante variante indiana, a Delta.
É difícil prever quando esta pandemia se encerrará, o caminho são as vacinas, mas também precisamos cuidar de nossos órfãos.
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