Infelizmente, muitos governantes confrontaram a ciência, as narrativas negacionistas e a falta de governança nas ações de enfrentamento se somaram à busca por remédios que levassem à cura milagrosa ou até a prevenção da doença. De erros em erros, permeados pela omissão de alguns que se preocuparam muito com seus interesses pessoais e pouco em contribuir para o bem comum, chegamos a mais de um ano de pandemia, onde estas situações ainda ocorrem, mesmo que em menor proporção. Felizes com o aparecimento das vacinas no apagar das luzes de 2020, mas contabilizando mais de 3 milhões de mortos no mundo e vivendo a angústia do aparecimento de novas cepas virais mais perigosas.
Nosso país fracassou no enfrentamento desta pandemia, portanto, as consequências são terríveis e se apresentam através de um descontrole no aumento de casos e mortes diariamente. Não adquirimos vacinas antecipadamente, temos poucas à disposição neste momento e vivemos na esperança de um segundo semestre de 2021 embalado por uma vacinação em massa, ainda a olhar os gráficos de óbitos por dia, ansiosos por uma desaceleração, o que já percebemos que ocorre, mas sem ações de governança eficazes, sem a conscientização da população sobre os resguardos sanitários que se deve ter e com poucas vacinas, creio que, os casos e os óbitos novamente aumentarão.
Perante esta situação complexa que vivemos há mais de um ano, pontuada com pouquíssimas boas notícias, como anda a nossa saúde mental?
O mecanismo do estresse, reação orgânica que ocorre quando passamos por situações onde nos sentimos ameaçados, que é responsável pela sobrevivência da raça humana até os dias atuais, onde através de hormônios liberados pelo sistema nervoso central (hipotálamo e hipófise), que ativam as glândulas suprarrenais a liberarem a adrenalina e o cortisol, hormônios estes que alteram as funções orgânicas, aumentando o batimento cardíaco, ampliando a oxigenação dos pulmões, entre outros, nos tornando alertas e aptos para suplantarmos situações que entendemos como perigosas. Este importante mecanismo se torna destrutivo para a saúde física e mental quando é ativado ininterruptamente, situação que vivemos nesta pandemia, podendo ainda desencadear ou potencializar doenças e transtornos mentais.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 bilhão de pessoas apresentam transtornos mentais, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos no mundo e 3 milhões morrem anualmente em função do alcoolismo, estes números certamente irão se ampliar de maneira ainda imprevisível. Os estudiosos entendem que a Depressão e os Transtornos de Ansiedade devem atingir tetos mais elevados, assim como a instabilidade emocional da população pode levar meses e até anos para voltar a patamares aceitáveis.
A 4ª onda, relativa ao descontrole de casos de doenças mentais, não se refere as ondas da pandemia propriamente dita, mas de suas consequências. O pneumologista do Hospital Universitário Eumory, de Atlanta (EUA), Victor Tseng, foi que inicialmente propôs a separação de suas consequências em 4 ondas. A 1ª onda foca na pandemia (casos e óbitos), a 2ª onda no colapso dos sistemas de saúde, a 3ª onda no agravamento de outras doenças crônicas pelo não tratamento e a 4ª onda está relacionada com o adoecimento mental da população. Importante ressaltar que estas 4 ondas podem ocorrer simultaneamente e desde o início da pandemia já existe um processo de comprometimento da saúde mental da sociedade.
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a partir do momento que a 4ª onda de consequências deste terrível evento sanitário se instala, diferentemente das ondas de uma pandemia que oscilam em aumento e diminuição de casos, esta onda crescente de doenças mentais não apresentará uma curva decrescente, formando um platô que pode levar anos para ser revertido aos níveis anteriores. De acordo com pesquisa da ABP, ainda de 2020, realizada em 23 estados e no Distrito Federal, 47,9% dos psiquiatras entrevistados relataram aumento nos atendimentos, 89,2% identificaram agravamento do quadro psiquiátrico dos pacientes, 67,8% atenderam novos pacientes, 69,3% atenderam pacientes que já haviam recebido alta. Já a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fez um levantamento entre março e abril de 2020 em 23 estados e identificou aumento de 90% nos casos de Depressão. Lembro que a Depressão é a principal causa do suicídio e, reitero, que este levantamento ocorreu no início da pandemia.
À mercê deste evento sanitário que, acredito, esteja controlado no Brasil apenas em 2022, a instabilidade emocional do brasileiro está posta à prova. Com insegurança relativa à nossa saúde e de nossos entes queridos, com incertezas no âmbito profissional e financeiro, e percebendo a falta de governança desta crise sanitária, a discussão sobre o estado atual da saúde mental da população precisa estar na ordem do dia.
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