terça-feira, 17 de novembro de 2020

2020, O MUNDO APRENDENDO E IMPROVISANDO.



O ano de 2020 não aconteceu, ou melhor, aconteceu da pior maneira possível, impulsionado por uma pandemia que já contaminou mais de 50 milhões de pessoas e vitimou mais de 1 milhão ao redor do mundo. Muitos tinham projetos profissionais, familiares ou de viagens, sonhos foram adiados e muitas vidas, onde germinam os sonhos, foram ceifadas. No Brasil, terceiro país com mais casos no mundo, com mais de 5 milhões de contaminados e segundo em óbitos, com mais de 162 mil vidas perdidas, a impressão de um ano perdido também é prevalente. Segundo pesquisa do Colégio Notarial do Brasil, de janeiro a agosto diminuiu em 33% o número de casamentos se comparado com 2019 e neste mesmo período tivemos uma queda de 90% nos voos nacionais.

Segundo estudos do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, o distanciamento social imposto por esta pandemia nos fez perder diversas ferramentas para elaborar planos, com relevo para conhecer novas pessoas e se oportunizar a novos caminhos, somando a isto, as tarefas cotidianas limitadas e o sentimento de estagnação, o que se conjuga para afetar as funções cerebrais, em especial o córtex pré-frontal, responsável pelo controle da atenção, do raciocínio e do comportamento. Já o campo da psicologia positiva enumera 5 principais pilares que se interagem para uma vida plena, quais sejam: emoções positivas, engajamento, relacionamentos saudáveis, propósito e realizações.

Esta pandemia bagunçou os principais pilares para uma vida plena, afinal, quantas emoções positivas tivemos em contraponto a sentimentos negativos causados pelo medo da doença, do desemprego e do futuro, alavancados por uma crise econômica sem precedentes que caminha como uma onda paralela e ainda por ser dimensionada e sem prazo para se encerrar. Seria possível pensar em relacionamentos saudáveis, quando nos é imposto o distanciamento das pessoas e vivemos num mundo onde a palavra saudável é uma retórica a ser alcançada? Quanto a propósito e realizações, creio que o momento exclui, se não por completo, em grande parte, estes sentimentos em nossa vida de agora.

Como tempero importante proporcionado pelo nosso organismo a se juntar a esta “geleia real” de sentimentos que vivemos, o mecanismo do estresse, o qual fez com que a espécie humana sobrevivesse pelos tempos, e se materializa organicamente a partir da liberação pelas glândulas suprarrenais do cortisol e da adrenalina, provocando uma série de reações orgânicas e neurológicas, as quais quando repetidas constantemente, como creio ter ocorrido até aqui, pode desencadear transtornos de ansiedade, depressão, levar ao suicídio e diversas outras patologias.

Olha só, um ano complicado, onde o planejamento de vida de cada qual se viu prejudicado ou esquecido, onde os sonhos deram vez a realidade do enfrentamento da pandemia e também de problemas que estavam aí, escondidos em camadas mais profundas do nosso esteio social, boa parte destes problemas oriundos de ações de governança ineficazes, da falta de cuidados das pessoas para com nosso planeta e para consigo mesmas e, claro, o momento mundial onde emerge o nacionalismo radical pouco afeito ao diálogo e ao contraditório, absolutamente distante da ciência, da solidariedade e da razão. Mas se não há espaço para o planejamento, o ato de sonhar é humano e se ancora na esperança, se materializando no improviso, na arte de criar e de se adaptar.

Historicamente o mundo se transforma apenas nestes momentos de dificuldades, assim foi no pós guerras mundiais, após o “crash” da Bolsa de Valores de Nova Iorque que gerou a maior depressão econômica mundial vista até agora, mas germinou um novo ciclo de prosperidade ditado pelo liberalismo econômico da era Roosevelt nos EUA. Os modelos econômicos e políticos-administrativos, de difícil alteração de ciclo, tem aderência a se modificarem nestes momentos.

A derrocada do nacionalismo radical e xenofóbico da era Trump nos EUA, sinônimo de negacionismo científico e de narrativas descoladas de valor humano é um exemplo claro do efeito devastador desta pandemia, com relevo para o fato da maior potência global ser igualmente a campeã em casos e óbitos da Covid-19, apresentando uma onda única, intermitente e crescente.

No Brasil, país tão afetado pela Covid-19, em que o Governo Federal negou a ciência e subvalorizou os mortos na pandemia, continuamos à mercê do negacionismo científico, das narrativas dissonantes, vendo o Ministério da Saúde (MS), criado em 1953, envergonhando e se distanciando de sua história e agora a discussão política das vacinas, com a ANVISA, autarquia de regime especial, criada pela Lei nº 9782/1999 e que tem a sua Diretoria Colegiada indicada pelo Presidente da República com referendo do Senado Federal, suspendendo sem motivação técnica comprovada, os testes da vacina Coronavac. Este ato da ANVISA já foi revertido, mas colocou em suspeição esta autarquia, a qual desconheço ter adotado decisões políticas em sua história, ao menos até aqui.

O momento está sendo de transformação e assim continuará a sê-lo, se para melhor, depende de nossa percepção dos fatores que nos trouxeram onde estamos. A possibilidade de mudança já é motivo para sonharmos, inicialmente improvisarmos, mas a seguir identificarmos as novas oportunidades, planejarmos e perseverarmos em nossos objetivos.

Na crise, se repense, se transforme, CRIE!!!

Vem comigo!!!

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