Esta pandemia da Covid-19 maculou 2020 como o ano em que o mundo parou, em que as pessoas foram obrigadas a se recolherem em seus lares, os modelos econômicos foram subjugados pelo SARS-Cov-2, a forma e as relações de trabalho estão sofrendo transformações, talvez apenas vistas na Revolução Industrial (1760 a 1840).
Os números continuam avassaladores, se o otimismo nos preenche com mais de 22 milhões de recuperados mundo afora, mais de 32 milhões foram infectados e quase 1 milhão perderam suas vidas. O Brasil, 2º país em número de casos e de óbitos, que neste momento se apresenta em fase de desaceleração da contaminação, se conforta com quase 4 milhões de recuperados, mas se entristece por mais de 4,6 milhões de contaminados e pelas mais de 140 mil mortes. Estamos ansiosos e esperançosos por uma vacina, a qual deve estar disponibilizada para início de 2021, mas precisamos estar conscientes que a logística de produção e imunização é complexa, e o seu resultado deve se apresentar para o final de 2021.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já se pronunciou, mesmo com o advento da vacina, deveremos ter o encerramento desta pandemia apenas em 2022. Portanto, viveremos até lá perante um “novo normal”, que impõe ações de governança para conter a evolução da contaminação e o uso da máscara, higiene constante das mãos, evitar aglomerações, enfim, tocar a vida com cuidados e responsabilidade.
O momento nos impõe pensar nas reais causas desta pandemia, quais sejam: a superpopulação do planeta, as atitudes de higiene falhas ou inexistentes, a fragilidade dos sistemas de saúde, a desigualdade social, a falta de acesso à água potável de grande parcela da população global e a destruição de nosso planeta, com relevo para degradação da fauna e flora. Com relação a esta última causa, o Brasil assiste com perplexidade e imensa tristeza o aumento das queimadas na Amazônia, no Cerrado e agora no Pantanal.
Nosso país detém a maior parcela de biodiversidade, em torno de 15 a 20% do total mundial de toda a flora, além de possuir cerca de 55 mil espécies vegetais catalogadas, representando a maior diversidade genética vegetal do mundo, com relevo para o fato que, apenas 8% foram estudadas para pesquisa de compostos bioativos e 1.100 espécies foram avaliadas em suas propriedades medicinais.
A floresta Amazônica representa 1/3 das florestas tropicais do mundo, 10% de toda a biomassa do planeta e as queimadas com o consequente desmatamento na região representam, neste momento, a liberação de 200 milhões de toneladas de carbono por ano (2,2% do fluxo total global), contribuindo com este ato deletério para o aumento do aquecimento global e a destruição da camada de ozônio. Ainda produz imensa quantidade de água para o país, através dos chamados “rios voadores”, formados por massas de ar carregadas de vapor de água gerados pela evapotranspiração na Amazônia, consequentemente, com o desmatamento, haverá alteração climática e diminuição no volume de chuvas predominantemente nos estados do Sudeste, do Centro-Oeste e do Sul.
As queimadas sucedem ao desmatamento, afinal, é caro desmatar, cada 100 hectares custam cerca de 100 mil reais, portanto, quem desmatou provoca as queimadas para a limpeza do local desmatado. Segundo dados da plataforma MapBiomas Alerta, termômetro do desmatamento, em 2019, mais de 99% dos desmatamentos foram irregulares.
O desmatamento e as queimadas na Amazônia, estão intimamente associadas à especulação e grilagem de terras públicas, a exploração predatória da madeira e outras atividades ilegais. É contumaz conotar o agronegócio como o grande vilão, entretanto, segundo pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), isto não condiz com a realidade, até porque a imagem do Brasil no exterior está bastante desgastada por estes eventos nefastos e este setor depende sobremaneira da exportação de seus produtos. Continua esta pesquisa, que no ano de 2019 se ampliou sobremaneira o desmatamento na região, com indicadores não vistos desde 2017, o que prosseguiu por 2020, sendo que, em 12 meses, a partir de agosto de 2019 houve um aumento de 34%.
Na origem desta ação nociva a todos, está a irresponsabilidade e atos criminosos de pessoas sem qualquer senso coletivo ou de respeito ao planeta, mas prossegue a pesquisa da USP, denunciando o desmantelamento das políticas de proteção ambiental por parte do governo federal, a ausência de fiscalização ou ineficácia deste processo e o consequente não cumprimento dos tratados internacionais de preservação do meio ambiente e de diminuição na emissão de gases poluentes.
Este crime contra o meio ambiente e a humanidade que ocorre de maneira continuada e agora ampliada na Amazônia e no Cerrado, neste momento, se propaga para o Pantanal mato-grossense, outra região diferenciada por sua beleza e por seu bioma, onde sobressaem animais em risco de extinção. Os motivos e os agentes causadores, me parece óbvio, que são similares aos da Amazônia.
Neste momento pandêmico, de se reinventar perante o novo mundo que já está aqui, de se cuidar e de tocar nossas vidas com responsabilidade, é imperativo que também seja o momento para pensarmos nos fatores que nos levaram ao que vivemos. As narrativas governamentais dissociadas da realidade sabemos que continuarão a ocorrer, entretanto, cabe a nós cobrarmos pela preservação de nossas riquezas naturais, por atitudes que levem a um mundo melhor e com otimismo agirmos no sentido destes objetivos.
Na crise, se repense, se transforme, CRIE!!!
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