Master Coach, Palestrante, Consultor de Gestão e de Projetos na área da Saúde, Colunista e Blogueiro. Cirurgião dentista, pós-graduado em Gestão Hospitalar. Colunista do portal de notícias No Ponto SC com a coluna e o Podcast “Transformando Vidas”. Presidente do Instituto Abaeté de Saúde e Desenvolvimento Humano. Criador do método "Transformando Vidas".
terça-feira, 5 de maio de 2020
PANDEMIA DA COVID-19, O RISCO DE UMA TRAGÉDIA NACIONAL: ANÁLISE DO BRASIL E DE SANTA CATARINA
A Pandemia da COVID-19 avança de maneira impiedosa pelo Brasil, segundo estudos do Imperial College University (Londres), temos a maior velocidade de transmissão do mundo, nos igualando ao EUA, isso significa que cada pessoa contaminada transmite a doença para, pelo menos, outras 3. Estes dois países são os únicos enquadrados na categoria “muito alta” de transmissão, perante este parâmetro, autoridades sanitárias consideram que as medidas de isolamento social só podem ser afrouxadas se esse número de reprodução da doença for abaixo de 1, esta tendência de taxa de contágio coloca o Brasil como o 2º país com mais mortes previstas.
O Brasil está entre os países que menos fazem testes, isto tem como consequência a subnotificação de casos, a dificuldade em se elaborar quadros confiáveis de situação, acarretando dificuldades para o enfrentamento eficaz em tempo e dose desta pandemia. Já passamos dos 100 mil casos confirmados e dos 7 mil óbitos, em função da subnotificação temos, na realidade, muito mais pessoas contaminadas e óbitos.
Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, o nível de subnotificação de casos no Brasil é de 7 a 15 vezes o número oficial, portanto, em se adotando que seja 10 vezes maior, teríamos mais de 1 milhão de casos país afora, já a de óbitos seria de 50%, teríamos passado dos 14 mil óbitos. A parte positiva é que a subnotificação de casos é muito maior que a de óbitos, a letalidade que hoje é, em torno, de 7%, cairia para 2 a 3%.
Nesta realidade de subnotificação de casos, os parâmetros adotados pelo Ministério da Saúde (MS) e pelos estados para se monitorar a curva de crescimento é a ocupação de leitos de UTI em paralelo ao número de óbitos e de casos confirmados somados aos casos suspeitos. Rio de Janeiro, Espírito Santo, Ceará, Pernambuco e Amazonas já apresentam mais de 90% de ocupação de leitos, sendo o Amazonas o primeiro estado a ver o seu sistema de saúde entrar em colapso. O Maranhão, tendo São Luiz e outras 3 cidades com mais de 90% de ocupação de leitos, foi o primeiro estado a adotar o lockdown nestas 4 cidades, por decisão judicial.
São Paulo, epicentro da pandemia no país, investe pesado na abertura de novos leitos de UTI e montou 3 hospitais de campanha na capital (Pacaembu, Anhembi e Complexo Ibirapuera), onde apresenta 68,7% de ocupação dos leitos exclusivos da COVID-19 e na região metropolitana, de 89%. Inicia a implementação de uma política de ampla testagem e mantém o estado em distanciamento social ampliado desde 24/03, indicando um início de flexibilização à partir de 11/05 em regiões que atingirem 50% de isolamento social. As autoridades sanitárias paulistas afirmam que a taxa ideal para conter a propagação do SARS-COV-2 seria de 70%.
O MS, nos últimos dias da gestão do ministro Mandetta, adotou algumas medidas que já deveriam ter sido implementadas desde o início da pandemia em nosso país, no que diz respeito a inibir a subnotificação de casos: a adoção de uma política de ampla testagem com a aquisição de mais de 46 milhões de testes RT-PCR (laboratorial) e de testes rápidos, o credenciamento de laboratórios e a instrumentação da Fio Cruz para a elaboração em escala de testes RT-PCR, ainda a criação de uma plataforma concentrando as notificações de casos da saúde suplementar e a elaboração de protocolo uniforme de ação das 47,7 mil equipes de agentes comunitárias de saúde; também elaborou uma Nota Técnica relacionada aos tipos de distanciamentos social e critérios de uso a serem adotados pelos estados e municípios. O novo ministro Nelson Teich, que a despeito de um bom currículo acadêmico como médico oncologista, é desprovido de experiência de gestão e de conhecimento do SUS, além de não demonstrar a mesma capacidade de comunicação de seu antecessor, aparentemente dá continuidade ao planejado.
Santa Catarina que iniciou um distanciamento social ampliado em 17/03, com vários municípios implementando inclusive o lockdown, medida importante, entretanto que precisa do momento adequado e critérios para a implementação, já com mecanismos para a saída do mesmo, visto os graves problemas de ordem psicológica, social e econômica, a meu ver, apesar do aparente achatamento da curva de crescimento, o fez de maneira prematura.
Neste momento, com o relaxamento desta medida e com 20,2% de ocupação de leitos de UTI, apresenta dificuldades nas atitudes de preparação do sistema de saúde, motivo arguido para esta ação, já que não tinha, e continua a não ter, razões epidemiológicas para tanto. Tendo um chamamento público para a implementação de hospital de campanha, eivado de discussões jurídicas, suspenso e, neste momento, a compra de respiradores no valor de 33 milhões, valor pago e produto não recebido, vemos a exoneração do secretário de estado da saúde. O governo estadual, na contramão do governo federal e de outros estados, não sinaliza implementar uma política de ampla testagem, continuando apenas com o LACEN como laboratório referência, prejudicando a elaboração de quadros e o planejamento de ações.
Os indicadores disponíveis mostram o início da curva de crescimento em SC para a 2ª quinzena de maio e início de junho, tendo 4 a 6 semanas de platô para posterior desaceleração, portanto, junho e julho tendem a ser meses críticos.
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quinta-feira, 30 de abril de 2020
A Pandemia da COVID-19: em um país tão desigual, o risco de uma tragédia nacional. Parte 2.
Olá!!!
Acompanhem a minha participação na 1ª edição do Jornal da Cidade (104.1
FM) de Itapema-SC, desta quinta-feira 30/04, onde continuamos
"Desvendando a Saúde do Brasil" e abordo a preocupante situação da
Dengue no Brasil e em Santa Catarina, as doenças sazonais de
outono/inverno e a evolução da COVID-19.
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Pandemia da COVID-19: em um país tão desigual, o risco de uma tragédia nacional. Parte 1.
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terça-feira, 28 de abril de 2020
PANDEMIA DA COVID-19: EM UM PAÍS TÃO DESIGUAL, O RISCO DE UMA TRAGÉDIA NACIONAL
No Brasil, a COVID-19 atingiu inicialmente uma pequena faixa da população de alto poder aquisitivo que foi contaminada pelo SARS-COV-2 no exterior, posteriormente o vírus acelerou em contaminação comunitária nas cidades mais populosas, neste momento já está atingindo o seu público preferencial, as pessoas desprovidas de condições básicas no que tange ao saneamento básico e outros condicionantes para se ter dignidade no sustento de suas famílias e qualidade de manutenção de sua saúde e dos seus.
Segundo o Instituto Data Brasil (2017) há 35 milhões de pessoas sem acesso à rede de água potável, em 2018, 13,5 milhões viviam abaixo da linha de extrema pobreza, com menos de R$ 145,00 por mês. Enquanto isso acontece, com poucas novidades para a reversão deste quadro, olhemos para a saúde pública, que se apresenta à partir da Constituição de 1988 como um Sistema Universal de Saúde, que impõe que os governos ofereçam uma saúde integral e gratuita a toda a população através do SUS.
O Sistema Único de Saúde, tão criticado e menosprezado, é hoje o maior artífice da luta contra a pandemia da COVID-19, entretanto, gargalos existem, principalmente na área hospitalar, com hospitais mal distribuídos pelo país, muitos destes necessitando de melhorias. Já sabemos da insuficiência de leitos de UTI, em função disto, hospitais Coronavírus estão sendo montados país afora e, olha só, alguns destes hospitais de campanha estão sendo alocados em estádios construídos ou reformados para a Copa do Mundo, aqui vem a lembrança da discussão, na época, de prioridades nos investimentos públicos, muito se falou da insuficiência de recursos para a saúde, da necessidade de utilizar este dinheiro destinado para a estruturação do país para este evento, na reestruturação de nossa rede hospitalar, por exemplo. Pois é, justiça divina talvez, mas estes mesmos estádios, em sua maioria, eivados de discussões jurídicas por mau uso do dinheiro público, hoje estão sendo transformados em hospitais.
Há no Brasil por volta de 30 milhões de idosos, 60 milhões de portadores de doenças crônicas não contagiosas, o pais é continental, amplo em dimensão e população (mais de 210 milhões), portanto o princípio do SUS, Equidade, qual seja, tratar desigualmente os desiguais, respeitando portanto as diferenças loco-regionais, se espelhará na intensidade, tempo de disseminação e no enfrentamento desta pandemia.
Até chegar ao Brasil em 26/02, as informações que recebíamos, especialmente da China, através da Organização Mundial da Saúde (OMS), nos reportavam a uma doença de menor gravidade. Claro que 15 a 20% da população, formada por grupos de risco (idosos, doentes crônicos e pessoas com comorbidades), serão os atingidos com mais intensidade, o restante da população, em se contaminando, podem nem apresentar sintomas ou fazê-lo de maneira branda, apresenta um período de 1 a 14 dias assintomático e com transmissão, entretanto além do altíssimo poder de contágio, seu grau de letalidade, aparentemente baixo, precisa ser certificado e, neste quesito, estudos indicam que o SARS-COV-2 já mutou para mais de 30 cepas virais diferentes, mais agressivas. Além disso, a evolução da doença no organismo debilitado é assustadoramente rápida.
O Ministério da Saúde (MS), através do ministro Mandetta, mostrou segurança de condução, transparência ao passar as informações, muito embasamento técnico e de gestão, entretanto, talvez por relativizar a doença e sua evolução no país, teve erros graves de condução, corrigidos nos últimos 15 dias do final do seu mandato, os quais citei na coluna anterior, mas me reporto a 2 deles: a elaboração, desde o primeiro momento, de uma cartilha com os tipos de distanciamento social e critérios de aplicação, isto foi feito, mas ficou devendo um encaminhamento de como evoluir de lockdown ou de um distanciamento social ampliado para o seletivo, os estados, alguns deles inclusive, tendo aplicado o isolamento social em tempo e dose inadequada, estão tendo que se virar para encontrar este caminho; outro erro grave igualmente corrigido foi a ausência de uma política de ampla testagem, desde um primeiro momento, isto impede a elaboração de quadros de situação confiáveis, visto a subnotificação de casos e inclusive, em menor proporção, de óbitos. Neste momento o MS amplia para 46,2 milhões a aquisição de testes, o PCRRT (laboratorial) e os testes rápidos.
Com relação a subnotificação de casos, pesquisas indicam que existe, na realidade, de 7 a 10 vezes mais casos que os confirmados oficialmente, portanto o país já teria passado dos 400 mil casos. Segundo o MS, a curva de crescimento da COVID-19 será de 3 a 10 de maio, com 4 a 6 semanas de manutenção de pico de casos para posteriormente entrar em curva de desaceleração, assim foi em outros países, entretanto a Equidade loco-regional, qual seja, as diferenças sociais, populacionais, epidemiológicas, de sistema de saúde e climáticas de cada local, associadas à ações de enfrentamento em tempo e dose eficazes, podem alterar o momento desta curva de aceleração.
Santa Catarina está gradualmente saindo de um estado de distanciamento social ampliado, é preocupante que não tenha implementado uma política de testagem ampliada e inteligente, tendo apenas o LACEN como laboratório credenciado e apresenta dificuldades para ampliar o número de leitos de UTIs. A necessidade designada pelo governo estadual é de 2500 leitos e o estado possui entre SUS e suplementar 1000 leitos.
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quarta-feira, 22 de abril de 2020
A PANDEMIA DA COVID-19: ÀS VÉSPERAS DA GUERRA O BRASIL TROCA O SEU COMANDANTE.
O SARS-COV-2 e a doença por ele causada, a COVID-19, impressionam e assustam mundo afora, se aproxima de 2,5 milhões de infectados e estamos rompendo a barreira dos 200 mil óbitos. No Brasil, onde a guerra sanitária ainda não começou, estamos próximos dos 40 mil casos e já passamos dos 2 mil óbitos. Santa Catarina já passou dos 1000 casos e já apresenta mais de 30 óbitos.
Todos já se habituaram com terminologias técnicas, como o isolamento social, grupos vulneráveis, já sabem a importância do uso da máscara, a necessidade da higienização constante das mãos com água e sabão ou do uso do álcool gel 70. Todos estamos segregados, distantes da nossa rotina e sem saber ao certo quando isto terminará, de que forma e em que mundo novo nós deveremos nos inserir.
O Brasil, às vésperas da guerra sanitária que, segundo o Ministério da Saúde (MS), deve ser travada entre 03 e 10 de maio, apresentando de 4 a 6 semanas de curva de pico da doença, mudou o seu comandante, o ministro da saúde.
O ministro Luiz Henrique Mandetta não suportou a pressão política e as discordâncias de posicionamento com o presidente da república, sendo substituído. Este médico, com experiência de gestão do SUS, tendo sido secretário municipal de saúde de Campo Grande (2004 – 2008), período em que se notabilizou no combate à dengue, com 2 mandatos de deputado federal, se diferenciou neste período ímpar, por um discurso transparente, pelo pulso firme e pelas convicções sólidas, respaldadas por conhecimento técnico e de gestão, tanto foi assim, que saiu com altos índices de aprovação.
Entretanto, erros foram cometidos, a começar por não implementar, desde o primeiro momento, uma política de ampla testagem, claro que pode-se dizer da dificuldade em se conseguir insumos para testes PCRRT (laboratoriais) e os testes rápidos fabricados pela China e Coreia do Sul, mas semana passada, a Fio Cruz divulgou que está se preparando para efetuar por volta de 30 mil testes/dia, portanto, dificuldades há, mas em se implementando esta política desde o primeiro momento, acredito que já teríamos resultados promissores. No quesito falta de insumos, equipamentos de proteção individual (EPI) e equipamentos hospitalares, os quais a China é o principal fornecedor, também uma logística de início de preparação para esta guerra poderia estar trazendo resultados positivos neste momento, focando inclusive no estímulo à indústria nacional, o que timidamente se iniciou ao final de seu mandato, eis aqui um outro erro.
Sabemos do problema da subnotificação de casos e inclusive de óbitos, estudos revelam que o Brasil já deva ter ultrapassado de fato os 200 mil casos, como identificar uma curva de contágio e um fator de crescimento confiáveis sem fazer uma ampla testagem da população, se não de todos, o que seria impossível, mas com disponibilidade de testes que permitissem diretrizes a serem implementadas e sem isso estamos trabalhando no escuro. Neste contexto o MS errou também ao não implementar, desde o início, uma plataforma única para a notificação de casos da saúde suplementar, fez isso poucos dias antes da saída do ministro. Ainda com relação à subnotificação de casos, implementou apenas a pouco, uma regra de atuação para a COVID-19 das 47.7 mil equipes de agentes comunitárias de saúde espalhados pelo país.
O MS, sob a batuta do ministro Mandetta teve acertos de postura e condução, entretanto cometeu erros graves, por último cito a Nota Informativa sobre os tipos de distanciamento social (lockdown, distanciamento social ampliado e seletivo) e suas diretrizes de aplicação, apenas emitida no apagar das luzes de sua gestão, o que fez que estados adotassem o distanciamento em tempo e dose, por vezes, inadvertidas e municípios chegassem a fechar suas fronteiras e decretarem o toque de recolher, o que seria quase um lockdown, remédio severíssimo. Mesmo acreditando que a prioridade é a saúde e que o distanciamento social é uma ferramenta fundamental, isto levou a um caos econômico e um desarranjo social sem precedentes.
O novo ministro, o médico oncologista Nelson Teich, tem um currículo acadêmico muito bom, entretanto está longe de ser referência em sua área, sendo mais conhecido como empreendedor da área da saúde, descrito como sereno e bom negociador. Exerceu por 4 meses assessoria na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do MS, com Mandetta, não tendo experiência de gestão SUS. A gestão suplementar é amplamente diferente da gestão SUS, tanto no aspecto legal quanto no aspecto de forma de atuação, portanto o ministro necessitará de uma assessoria técnica de estrita confiança para não correr o risco de incorrer em erros ao caminhar às cegas sob a tutela de seus assessores. Claro que o ministro da saúde é responsável pela saúde pública e a suplementar, isto amplia as complicações da pasta, com relevo ao fato que o sistema de saúde brasileiro é Universal e o SUS é amplamente majoritário.
Santa Catarina decretou distanciamento social ampliado (17/03) sem critério epidemiológico, com a premissa de preparar o seu sistema de saúde para não eclipsar no pico da pandemia, está calibrando a distensão desta medida e a liberação gradativa de setores, está tendo dificuldades para atingir o número de 2500 leitos de UTI que julga necessários. O edital de Chamamento Público para hospital de campanha de Itajaí e posteriormente outros a serem implementados, eivado de discussões jurídicas, foi cancelado. Neste momento prepara uma licitação com este foco e o governador decretou Estado de Calamidade Pública, acredito que com intenção maior em requisitar leitos de UTI da saúde suplementar. O fato novo é o julgamento favorável do STF à Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6341, impetrada pelo PDT contra vários dispositivos da MP 926/2020 e que altera a Lei da Quarentena (13.979), permitindo que estados e municípios decretem os serviços que lhe são essenciais e, perante protocolos, a sua reabertura.
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