terça-feira, 6 de julho de 2021

PANDEMIA DA COVID-19 PROVOCA PREOCUPANTE DESASSISTÊNCIA NO SUS


Esta pandemia da Covid-19 que já contaminou mais de 18,4 milhões de pessoas no Brasil e vitimou mais de 514 mil, trouxe à tona diversos problemas conjunturais, alguns conhecidos, outros escondidos em camadas mais profundas da nossa sociedade. A desigualdade social se tornou insustentável, os desmandos administrativos e o mau uso do dinheiro público nos afrontam diariamente, assim como o negacionismo e as narrativas distantes da ciência, desrespeitosas com a figura humana, por vezes discriminatórias e agressivas, que vemos de muitos homens públicos. A economia que já não andava bem, foi para a UTI, dividindo os poucos leitos com pacientes de Covid-19, padecendo de uma terapia distante dos bancos escolares, a qual não consegue entender que sem tratar a saúde da população atingida pela pandemia, os indicadores econômicos não melhorarão. Portanto, vacinas, políticas de estado focadas na saúde e campanhas de conscientização, salvam vidas e, igualmente, salvarão nosso modelo econômico.

Perante esta imensa quantidade de más notícias, vemos emergir como grande alicerce do combate a pandemia em nosso país, o tão contestado SUS. Pois é, muitos não sabem como era antes da Constituição de 1988, a qual mudou o nosso modelo de sistema de saúde público para o Universal, tendo a partir do artigo 196 da Constituição Federal: “A saúde é direito de todos e dever do Estado...”, se definido por um sistema de saúde gratuito e acessível para todos, o Sistema Único de Saúde. Mas, até o advento do SUS, nosso sistema de saúde público tinha o modelo de Seguro Social, acesso gratuito para quem tinha carteira de trabalho assinada ou então pagava pelos serviços. A oferta de serviços era restrita e não era capilarizada como ocorre hoje através da Estratégia de Saúde da Família (ESF), Política Nacional da Atenção Básica e que oferta serviços para uma população adstrita através de Unidades Básicas de Saúde e um grupo multiprofissional. Lembro que a ESF é a porta de entrada do SUS e gerencia os encaminhamentos para as linhas de atenção secundária e terciária.

O SUS, um dos maiores sistemas universais do mundo, inspirado no modelo inglês, sempre teve gargalos, causados pelo subfinanciamento do Governo Federal, fato histórico, também pelas dificuldades de investimentos na área hospitalar e de alta tecnologia, visto os recursos envolvidos, pela gratuidade dos serviços e pela dificuldade, igualmente histórica, de contrapartida financeira dos planos privados. Mas, mesmo com estes gargalos, perante o completo fracasso das políticas de enfrentamento da pandemia por parte do Governo Federal e do Ministério da Saúde (MS), se não fosse o SUS, certamente o Brasil teria muito mais mortes nesta pandemia.

Que o SUS é importante e precisa de mais investimentos, a realidade desta pandemia fez com que a maioria dos brasileiros entendessem isso, mas em função desta demanda irrestrita de pacientes acometidos pela Covid-19, a desassistência de outros serviços se tornou um problema sério e que precisa ser enfrentado.

O pneumologista do Hospital Universitário Eumory de Atlanta (EUA), Victor Tseng, foi quem inicialmente propôs a análise das consequências pandêmicas e a sua tabulação em 4 ondas. A primeira onda da pandemia (casos e óbitos), a segunda onda do colapso dos sistemas de saúde, a terceira onda do agravamento de doenças crônicas pelo não tratamento e a quarta onda do adoecimento mental da população. Mas a prática dos fatos já mostra a desassistência brutal de outros procedimentos e o abismo sanitário causado.

Segundo dados do Datasus, referentes apenas ao ano de 2020, a atenção primária teve queda de 49% nos atendimentos, as consultas especializadas tiveram uma redução de 25% (em média) e as internações reduziram em 16%. Este comparativo se faz perante a média de procedimentos realizados de 2017 a 2019. Esclareço que, o SUS é responsável por 65% das internações do nosso país, antes da pandemia, o volume de internações anuais se mantinha estável ano após ano, com oscilações de 3% para mais ou para menos. Com relação as doenças cardiovasculares, uma das principais causas de mortes em nosso país, houve uma redução de hospitalização de 16%, em contraponto existem evidências que apontam para um aumento de óbitos em casa. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, entre março e maio de 2020, houve um aumento de 32% nos óbitos por distúrbios cardiovasculares em casa.

Quando observamos a situação dos pacientes acometidos de câncer, segundo o relatório Radar do Câncer do Instituto Oncoguia, houve uma diminuição de 39% no volume de biopsias e uma diminuição de 5% nas internações hospitalares.

Estes indicadores refletem as restrições de acesso ou diminuição de oferta de diversos serviços do SUS neste evento sanitário, mas também o fato de muitas pessoas adiarem as suas consultas ou procedimentos hospitalares por receio de se contaminarem.

O encerramento desta pandemia se dará a partir de uma vacinação em massa dos brasileiros que nos faça alcançar a imunização coletiva (mais de 70% da população vacinada), com ações de governança que sejam regradas pela ciência, ainda pela conscientização dos brasileiros. Entretanto, não podemos fechar os olhos à realidade da desassistência a população que este terrível evento sanitário causou e precisamos, desde já, enfrentar esta dura realidade.

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