O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo, com a maior taxa mundial de pessoas afetadas por Transtornos de Ansiedade, segundo relatório da OMS de 2020. Algo em torno de 9,3% da população brasileira tem algum Transtorno de Ansiedade, portanto, quase 20 milhões de pessoas. Esses números vêm crescendo, em 2015 tínhamos 18,6 milhões de brasileiros padecendo de Transtornos de Ansiedade, sendo que, a pandemia deve potencializar esses números. A OMS identifica ainda que, algo em torno de 5,8% de nossa população sofre de depressão, mais de 12 milhões de casos, sendo o maior índice da América Latina e o segundo maior das Américas, atrás dos EUA (5,9% da população).
Apenas os indicadores citados acima já justificariam uma maior atenção global a saúde mental logo no início do ano, momento de planejar e projetar a vida no ano que se inicia.
Perante esta lógica, surgiu em 2014 no Brasil, o Janeiro Branco, campanha inspirada no Outubro Rosa e no Novembro Azul, sendo criada por psicólogos de Uberlândia (MG), tendo no primeiro ano, ações realizadas por psicólogos e estudantes de Psicologia desta cidade mineira, envolvendo palestras, rodas de conversa, dinâmicas de grupo, entre outras atividades. Atualmente, o Janeiro Branco está nacionalizado, em crescimento, mas ainda tendo o voluntariado como o seu diferencial, apesar de agregar entidades como o Centro de Valorização da Vida (CVV) e organismos públicos.
A saúde mental das pessoas, que já era uma preocupação mundial antes da pandemia, se tornou algo premente de ser analisado e tem levado os estudiosos a projetar um nível de descontrole tal, que acarretaria uma 4ª onda de consequências da pandemia.
Esta 4ª onda seria relativa ao descontrole de casos de doenças mentais, não se referindo as ondas da pandemia propriamente dita, mas de suas consequências. O pneumologista do Hospital Universitário Eumory, de Atlanta (EUA), Victor Tseng, foi quem inicialmente propôs a separação das consequências da pandemia em 4 ondas. A 1ª onda foca na pandemia (casos e óbitos), a 2ª onda no colapso dos sistemas de saúde, a 3ª onda no agravamento de outras doenças crônicas pelo não tratamento e a 4ª onda está relacionada com o adoecimento mental da população. Importante ressaltar que estas 4 ondas podem ocorrer simultaneamente e desde o início da pandemia já existe um processo de comprometimento da saúde mental da sociedade.
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a partir do momento que a 4ª onda de consequências se instala, diferentemente das ondas de uma pandemia que oscilam em aumento e diminuição de casos, esta onda crescente de doenças mentais não apresentará uma curva decrescente, formando um platô que pode levar anos para ser revertido aos níveis anteriores. De acordo com pesquisa da ABP, ainda de 2020, realizada em 23 estados e no Distrito Federal, 47,9% dos psiquiatras entrevistados relataram aumento nos atendimentos, 89,2% identificaram agravamento do quadro psiquiátrico dos pacientes, 67,8% atenderam novos pacientes, 69,3% atenderam pacientes que já haviam recebido alta. Já a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fez um levantamento entre março e abril de 2020 em 23 estados e identificou aumento de 90% nos casos de Depressão. Lembro que a Depressão é a principal causa do suicídio e, reitero, que este levantamento ocorreu no início da pandemia.
Os Transtornos de Ansiedade e a Depressão apresentam fatores de risco internos, quais sejam, genéticos (com relevo para a hereditariedade), comportamentais (timidez, negatividade, dificuldade de gerenciar o estresse, entre outros), dependência química e condições de saúde, que normalmente se somam a fatores externos, por exemplo, eventos traumáticos vividos, violência, estresse familiar ou ambiental e sedentarismo.
Como vimos, o estresse é um fator de risco para desencadear ou potencializar os Transtornos de Ansiedade e a Depressão. Portanto, a carga de tensão vivida pela humanidade nesta pandemia, a qual fez com que o mecanismo orgânico do estresse fosse acionado de maneira continuada em um número infinito de pessoas, pode ter desencadeado danos físicos e mentais. Perante esta lógica científica, os estudos a respeito da 4ª onda de consequências pandêmicas devem ser olhados com muita atenção e medidas preventivas precisam ser tomadas.
Importante dizer que, quando falamos de saúde mental, também não podemos deixar de considerar a importância de se desenvolver a Inteligência Emocional, a qual vem sendo estudada desde 1920, cientificamente aceita e sedimentada através do conceito difundido pelo psiquiatra Dr. Daniel Goleman em 1995.
A saúde mental é uma pauta para ser abordada durante o ano todo, contudo, o Janeiro Branco, esta campanha brasileira, se faz muito importante em conteúdo e na época em que é implementada, momento de planejar o ano, e para isto a saúde mental precisa estar em plenas condições.
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