sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

DESVENDANDO UM TABU: Suicídio de crianças e adolescentes. (Parte III)



Ao iniciar a terceira parte deste artigo, onde abordarei a sociedade em que vivemos como motivadora para o suicídio de crianças e adolescentes, trago dados do Ministério da Saúde de 2016, ano em que foram catalogados 10.575 suicídios, sendo que 845 eram de crianças e adolescentes. Relata ainda este levantamento, que houve uma curva de crescimento de 0,7% de 2015 para 2016.

Importante ainda dizer que o enfoque desta questão por parte dos organismos em saúde mudou bastante nos últimos anos, senão vejamos, na década de 80 existia um direcionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), braço em saúde da Organização das Nações Unidas (ONU), posição esta embasada em pesquisa elaborada por organismos sanitários dos Estados Unidos (EUA), a qual concluía que a divulgação de casos de suicídio, em qualquer faixa etária, causaria outros casos similares, portanto esta pesquisa identifica a ocorrência de casos por imitação de fatos ocorridos.

Este direcionamento perdurou até o início dos anos 2000, quando a OMS mudou diametralmente de posição e adotou a postura de abordar o tema e trabalhar a sua prevenção. Esta mudança de postura está embasada no fato que, mesmo com a ausência de divulgação e diálogo sobre esta questão, os índices de crescimento do suicídio no mundo continuaram aumentando, como comprova pesquisa elaborada pela ONU em 101 países entre 2000 e 2009. Nesta mesma toada, em 2003 a Associação Internacional para Prevenção ao Suicídio e a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) instituíram o dia 10 de setembro como Dia Mundial para Prevenção do Suicídio e em 2014 a OMS publicou o primeiro relatório sobre suicídio no mundo: “Prevenção do Suicídio, uma necessidade global”.

No Brasil, em 2009, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM) elaborou a cartilha: “Suicídio, informando para prevenir.”

Se faz o momento de discutir o assunto, de trazer luz a este tema revestido de preconceito, entretanto o papel de uma minoria sensacionalista da mídia, a qual busca leitores, “likes” em publicações e retorno financeiro ao custo da divulgação irresponsável e sem base científica ou factual, tem trabalhado na contramão da informação qualificada, conseguindo por vezes com esta postura, gerar o medo e até mesmo replicar fatos.

A sociedade em que vivemos, identificada em sua perversidade, se esboça no que relato acima, mas também se evidencia em outro motivo citado pelos especialistas como sendo um grande catalisador para o suicídio de crianças e adolescentes, estou falando do bullying.

Pesquisadores do Kings College, em Londres, observaram 7.771 crianças, das quais 28% sofreram algum tipo de bullying entre os 07 e 11 anos e as acompanharam até completarem 50 anos. Esta pesquisa se iniciou em 1959 e teve conclusão no início dos anos 2000. Eles descobriram que a maioria das vítimas de bullying ainda sofriam com traumas, 40 anos após terem sido intimidadas.

Segundo o Dr. Ryu Takizawa, do Instituto de Psiquiatria desta Universidade: “Nosso estudo mostra que os efeitos do bullying são ainda visíveis quase 4 décadas mais tarde. O impacto do assédio moral é persistente e generalizado, com consequências sanitárias, sociais e econômicas duradouras na idade adulta.” Os cientistas verificaram que as vítimas eram propensas a serem menos saudáveis e eram mais suscetíveis a desenvolverem a depressão, transtornos de ansiedade e pensamentos suicidas com 50 anos de idade.

No Brasil, pesquisas revelam que mais de 67% de nossas crianças já sofreram algum tipo de bullying, em função disso foi instituído o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, a qual inclui entre as atribuições das escolas, a promoção da cultura, da paz e medidas de conscientização, prevenção e combate a diversos tipos de violência, como o bullying. Este programa se sustenta em duas leis que visam combater este mal: Lei Federal nº 13.185/2015 e Lei Federal nº 13.663/2018.

04 passos para identificar vítimas de violência e/ou os agressores:

· Ouvir os filhos e inspirar confiança;

· Atentar para mudanças de comportamento;

· Conhecer os perfis típicos do bullying: crianças tímidas, retraídas, introspectivas ou com baixa-estima, que não se encaixam em padrões definidos como “adequados” pela sociedade;

· Saber que o bullying não é só violência física, pode ainda ser: verbal, moral, sexual, social, psicológica, material e virtual.

Segundo especialistas, a solução para se coibir o bullying passa pela mudança da cultura de convivência entre os alunos, o que exige um conjunto de diversas estratégias, resumidas em 06 pontos principais:

· Reconhecer a existência do bullying;

· Conhecer e cumprir a lei de combate;

· Transformar os valores dos alunos;

· Engajar os professores;

· Envolver os pais na vida escolar;

· Não subestimar o cyberbullying.

A sociedade em que vivemos é plural em sua diversidade de valores, crenças, credos e costumes, assim como somos diferentes uns dos outros fisicamente, na maneira de pensar e agir, o respeito a todos e cada qual em suas opções e diferenças deveria ser a essência da construção de nossa sociedade, mas sabemos que nem sempre é assim, portanto entendo que muito da existência do bullying vem da construção do cidadão primeiramente no seu nicho familiar e depois na escola, assim como na capacidade de pais e educadores em incutirem estes valores, estas verdades e a capacidade dos jovens em se colocarem no lugar do outro e o respeitá-lo como ele é. Enquanto a nossa sociedade não evoluir neste norte, certas questões sociais, em especial o bullying, serão grandes responsáveis por problemas de diversas ordens e inclusive pela mortandade de nossas crianças e adolescentes.

Na próxima terça-feira, na quarta parte deste artigo, abordarei a “Era Digital” como motivadora do suicídio de crianças e adolescentes.

Vem comigo!!!

Contatos para contratação de Palestras ou Consultorias:

Fones/Whatsapp: (47) 99983-6026 (47) 99903-6152

E-mail: ballesteroconsultoremsaude@gmail.com

https://linktr.ee/ballesteroconsultoremsaude
 

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

DESVENDANDO UM TABU: SUICIDIO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. (Parte II)

           


Nesta segunda parte, abordarei os motivos, como agir com seus filhos e continuarei junto com você a desvendar o suicídio de crianças e adolescentes, um tabu o qual mistura preconceito e carência de informações, mas que precisa ter suas razões identificadas, romper com este silêncio, bradar um sinal de alerta e se uma vida for salva, este artigo terá alcançado o seu objetivo.

Motivos estudados que podem levar a criança e o adolescente a tentar o suicídio:

· Sentimento de abandono;
· Desajustamento na escola ou em casa;
· Desesperança em relação ao futuro;
· Uso de álcool e drogas (cada vez mais precoce);
· Quadros de doenças psicossociais: Depressão, Síndrome de Déficit de Atenção e Hiperatividade, entre outras;
· Abusos e maus-tratos;
· Maternidade em idade prematura;
· Impulsividade natural de crianças e adolescentes;
· Violência social: Bullying;
· Fator “Era Digital”.
Ao observar os motivos identificados por especialistas percebemos os quadros de doenças psicossociais, segundo o Dr. Marcelo Dault Von Der Heyde, médico psiquiatra: “Perto de 90% em média, dos quadros de suicídio, tem algum distúrbio mental por trás, seja em adultos ou adolescentes. E na maior parte das vezes, são quadros tratáveis.” Ainda segundo o Dr. Marcelo: “A questão do suicídio é uma emergência médica da mesma forma que o infarto ou uma infecção. As pessoas precisam entender que, quando há intenção de suicídio isso é uma emergência médica e precisa de ajuda imediata”. 

Será que, realmente em 90% dos casos de suicídio de crianças e adolescentes tem alguma interferência de distúrbios psicossociais? Acreditando nesta tese que alguns especialistas defendem, e a razão do suicídio dos outros 10%? 

Quando se observa novamente o quadro de motivos é de se perceber o desarranjo familiar, a desesperança com relação ao futuro, abusos e maus-tratos e outros motivos diretamente relacionados com questões familiares, a educação que é dada a estas crianças e adolescentes e a sociedade em que vivemos, a qual por vezes é bastante cruel e perversa. 

Poderia comentar ainda a maternidade prematura que faz com que muitas jovens, ainda na adolescência, acabem atentando contra a própria vida, em situações as quais precisam ser melhor apreciadas; ou o uso, em idades tenras, de álcool e drogas, motivos que acredito estejam diretamente relacionados ao núcleo familiar destes jovens. Mas para mim, pelo que eu tenho estudado e pesquisado, estes fatores aos quais me reportei anteriormente, sempre estiveram aí e portanto, não acredito que devam ser o real motivo desta curva de crescimento do suicídio de crianças e adolescentes apresentada nos últimos anos, com exceção de dois motivos que tem chamado a atenção de especialistas, como o professor da Fundação Oswaldo Cruz, médico psiquiatra e psicanalista Dr. Carlos Estelitta Lins, o qual defende que a sociedade em que vivemos e a “Era Digital” sejam os grandes motivadores deste aumento considerável na incidência de suicídios nesta faixa etária, nos últimos anos.

Segundo a Dra. Angela de Leão Bley, doutora em Psicologia Clínica e Chefe do Serviço de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba-PR: “Em especial os pais, mas também amigos e educadores, devem estar atentos a sinais que identificam que há algo de errado com o psicológico de suas crianças e adolescentes, podendo conotar em boa parte dos casos um distúrbio psicossocial e/ou uma ideação suicida.”

Sinais (Crianças): 

· Apatia, voz monótona;
· Sintomas físicos (como dor de barriga, dor de cabeça e dificuldade em dormir recorrentes);
· Irritação;
· Queda no desempenho escolar ou não gosta mais de ir para a escola;
· Mudança na alimentação (come muito ou come pouco);
Sinais (Adolescentes):
· Conseguem relatar de uma forma mais clara através de frases como: “eu sou um peso morto para a família”, “ninguém gosta de mim”;
· Demonstrar grau de desesperança;
· Mudança de hábitos (escolar, alimentação, entre outros).
Segundo o Dr. Marcelo Heyde, após identificar os sinais, o diálogo entre pais e filhos deve ser o mais acolhedor possível, sem julgamento: “Muitas vezes o jovem quer o diálogo, mas ele tem medo do julgamento e por isso evita”, ainda segundo o Dr. Marcelo: “Saber escutar seus filhos é muito mais importante do que correr atrás de sintomas escondidos”.

Ao concluir a segunda parte deste artigo, onde me aprofundei em pesquisas, identificando motivos e sinais perceptíveis de alterações psíquicas e/ou comportamentais que possam antever o suicídio de crianças e adolescentes, analisando e contextualizando os mesmos, cada vez mais percebo a carência de pesquisas e de informações abalizadas sobre o tema, o que fortalece a intenção deste trabalho de informar, alertar e como disse no início, se uma vida for salva, este artigo terá alcançado o seu objetivo.

Na próxima terça-feira, na terceira parte estarei desvendando dois motivos, os quais estou firmando sólida convicção de serem catalisadores desta curva de crescimento ocorrida nos últimos anos, do suicídio de crianças e adolescentes, quais sejam: “A sociedade em que vivemos” e a “Era Digital”.  

Vem comigo!!!

Contatos para contratação de Palestras ou Consultorias:
        Fones/Whatsapp: (47) 99983-6026 (47) 99903-6152  


TRANSFORMANDO VIDAS: COMO VENCER A AUTOSSABOTAGEM

Autossabotagem é quando a pessoa toma atitudes que lhe são prejudiciais, influindo de maneira negativa nas suas tarefas cotidianas, nos seus...