terça-feira, 26 de maio de 2020

BRASIL, O NOVO EPICENTRO DA PANDEMIA: MINISTÉRIO DA SAÚDE SEM COMANDO, CLOROQUINA E A BUSCA DO NOVO NORMAL.



Desde os primeiros artigos que escrevi sobre a pandemia oriunda do SARS-COV-2 e a doença por ele causada, a COVID-19, ainda em fevereiro, quando da pressuposta entrada do vírus no país em 26/02, tenho dito que podemos nos espelhar, tanto nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto na experiência dos outros países que estão na nossa frente na curva de contágio. A primeira delas é em manter um comando único que articule as ações em todo o país, com um diálogo transparente, eficaz e contínuo com a população, coisa que a Itália não conseguiu fazer, a despeito de ter um sistema de saúde de modelo universal semelhante ao SUS, mas que, em virtude de problemas políticos, isto foi prejudicado, e somado a contenção inadequada desde o primeiro caso e o grande volume de idosos (maior da Europa), o caos se instaurou.

Também a ampla testagem, priorizando o RT-PCR (exame laboratorial com 96% de eficácia) e credenciando laboratórios, secundado pelos testes rápidos, os quais tem 30% de eficácia quando utilizados adequadamente para pacientes sintomáticos (a partir do 7º dia), recomendados para o controle dos profissionais de saúde e outros envolvidos, isto inibiria a subnotificação de casos e de óbitos, proporcionando a elaboração de quadros reais e confiáveis, dando parâmetros para o planejamento de ações de enfrentamento e do nível de imunização, como procedeu a Coreia do Sul e a Alemanha. O distanciamento social é a única ferramenta de prevenção, mas sem a testagem, como saber o momento, a sua amplitude e como evoluir até um novo normal?

Neste momento estamos com o Ministério da Saúde (MS) sem ministro efetivo, com um militar sem experiência na área, como interino, suscitando dúvidas sobre a recomposição de seu corpo técnico, o diálogo bem articulado dos tempos do ex-ministro Mandetta, bastante prejudicado na breve gestão Teich, não existe mais. Hoje, a discussão não é a pandemia e a correção de erros na política de contenção, ou a articulação das ações em nível nacional e sim uma medicação salvadora, a Cloroquina.

Na prática, a Cloroquina, o Remdesivir e outras medicações, já vinham sendo utilizadas em casos graves e com controle de seus efeitos colaterais, mas não existe estudo que comprove a real eficácia da Cloroquina ou da Hidroxicloroquina associada ou não à Azitromicina e ao Zinco na cura da COVID-19. Quando utilizada em altas dosagens, exigido neste caso, pode causar arritmia cardíaca, problemas renais, entre outros. O Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu o Parecer nº 04/2020, onde não recomenda e sim autoriza, perante critérios e condições, a sua prescrição para pacientes com sintomas leves, com sintomas importantes (sem necessidade de cuidados intensivos) e para pacientes críticos, porém ressalta a possibilidade de efeitos colaterais e a inexistência de comprovação cientifica de sua eficácia para esta doença, deixando o seu uso a critério do médico e do paciente, além de exigir a assinatura do Termo de Consentimento livre e esclarecido do paciente ou dos familiares.

O MS emitiu uma nova orientação de uso em 20/05, de maneira atípica, com foco para a utilização na Atenção Básica em fases iniciais da doença, claramente por pressão do chefe da nação, visto que cabe ao CFM e a ANVISA regularem a autorização ou a recomendação do uso de medicações. Caberá aos médicos e gestores a responsabilidade e creio que poderá acarretar ações judiciais por parte dos pacientes.

A pandemia da gripe espanhola foi de janeiro de 1918 a dezembro de 1920, teve 4 ondas, a segunda mais intensa, vitimando mais de 50 milhões de pessoas. Portanto, uma pandemia não é uma corrida de 100m e sim, uma maratona, com várias fases: entrada do vírus no país, circulação comunitária em cidades e regiões, curva de aceleração (4 a 7 semanas), curva de desaceleração, fase de imunização, podendo haver outras ondas da doença e, após a sua fase crítica (fase de aceleração), haverá outra onda, a dos pacientes portadores de outras doenças, neste momento precariamente assistidos, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, em abril, 50 mil brasileiros não tiveram acesso a diagnóstico e tratamento para o câncer.

A COVID-19 só estará controlada perante a existência de vacina e/ou medicações eficazes para todos os casos, ainda com a imunização de mais de 60% da população, o que se denomina “imunização do rebanho”. Para cada fase se exige um planejamento e ferramentas adequadas, neste momento que algumas regiões vivem a fase de aceleração e outras estão no aguardo, a ampla testagem seria um farol na escuridão.

Pensando na realidade da subnotificação de casos de 10 a 15 vezes e de óbitos de 50% (dados da Fio Cruz), o Brasil já teria passado dos 3 milhões de casos e dos 30 mil óbitos, e Santa Catarina dos 60 mil casos e dos 150 óbitos. No aguardo da chegada da curva de crescimento, vendo as regiões Sul, Grande Florianópolis, Grande Oeste, Foz e Vale do Rio Itajaí, como as mais atingidas, o governo estadual continua trabalhando como se não houvesse amanhã, sem implementar uma política de ampla testagem, com dados bastante duvidosos, com relevo para o número de leitos de UTI e, aparentemente, sem preparar de maneira adequada o sistema de saúde.

O estado está imerso na discussão jurídica e política das irregularidades na compra de respiradores e do “finado” Chamamento Público para hospital de campanha de Itajaí, enquanto isso, dos 89 leitos de UTI-SUS da região da Foz do Rio Itajaí, 76 estavam ocupados (24/05), 85,4% de ocupação, restando 13 e uma dúvida imensa sobre o que há de vir.

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