sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

DESVENDANDO UM TABU: Suicídio de crianças e adolescentes. (Parte IV)



Você sabia que, segundo o ranking divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2014, o Brasil é o oitavo país com maior número de suicídios no mundo?

Você sabia que entre 1980 e 2014, segundo dados do Mapa da Violência, estudo publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) – Ministério da Saúde (MS), houve um aumento de 27,2% dos suicídios de jovens entre 15 e 29 anos?

Você sabia que, segundo o Mapa da Violência do Ministério da Saúde, nos últimos 10 anos, houve um crescimento de 40% na taxa de suicídio de jovens entre 10 e 14 anos e de 33,5% de jovens de 15 e 19 anos?

Você sabia que, segundo dados do SIM-MS, 7,3% de todas as mortes de jovens são decorrentes de suicídio, ficando atrás somente de acidentes de trânsito?

Você sabia que, por muito tempo não se tratou abertamente sobre o tema por medo do chamado “Efeito Werther”, nome que vem do protagonista do livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, publicado em 1774, que versa sobre um rapaz que se mata após um fracasso amoroso e cujo exemplo teria provocado outros suicídios de jovens, que este pensamento fortalecido por pesquisa feita nos Estados Unidos nos anos 80 perdurou até o início dos anos 2000? Ainda que, a diretriz atual da OMS é abordar o tema sem glamour, sem divulgar métodos e sem apontar o suicídio como solução para os problemas, agindo sem preconceito e oferecendo ajuda a quem precisa?

Nesta quarta parte deste artigo abordarei a “Era Digital” como fator motivador do suicídio de crianças e adolescentes.

Um artigo de investigação da Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, de junho de 2017, elaborado por duas estudiosas do tema, constatou que as Redes Digitais podem operar facilitando o acesso a conteúdo sobre o suicídio, informando sobre método, encorajando, produzindo o contágio e o cyberbullicidio.

Thiago Tavares, presidente da Safer Net Brasil, ONG que defende os direitos humanos na internet, luta contra crimes cibernéticos e apresenta uma Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos operada em parceria com o Ministério Público Federal, fala sobre a exploração de quem possui vulnerabilidade emocional e o risco deste jovem ser induzido ao suicídio.

Vários jovens foram induzidos ao suicídio em 2017 e 2018 através do jogo da Baleia Azul, onde são propostas tarefas, que vão desde atividades simples, como desenhar uma baleia em um papel ou assistir sozinho a um filme de terror, até coisas mais agressivas como cortar os lábios, perfurar a palma da mão e desenhar uma baleia no antebraço com um objeto cortante. Quando deixa de cumprir os deveres, o participante é ameaçado pelo administrador. Na etapa final o jogador deve se matar.

Em 2017, temos o caso relatado de um casal de jovens encontrados mortos em um hotel de São Paulo (uma jovem de 16 anos e o namorado de 19 anos), segundo a polícia, houve um pacto de morte, onde o rapaz teria matado a namorada e em seguida se suicidou. Todas as evidências da polícia apontam para a influência negativa da série da Netflix “13 Reason Why”, onde a protagonista de 17 anos se mata após ser vítima de bullying e assédio, versando a série nas 13 fitas que ela grava explicando as razões e as pessoas que a levaram a praticar o ato.

Em 2018 e 2019, temos casos relatados de suicídio de jovens, onde a linha de investigação aponta a influência da boneca “MOMO”, vídeo que induz a criança a automutilação e ao suicídio, o qual é inserido por hackers em vídeos da Peppa Pig e Fortnite no YouTube.

Podemos ainda lembrar do triste acontecimento ocorrido em Suzano-SP, em 2019, onde adolescentes chacinaram outros tantos jovens em uma escola, simulando um jogo de videogame ou de massacre similar, ocorrido em 2018, efetuado por um ex-aluno de 19 anos, na escola Marjory Stoneman Douglas na Florida-USA, com saldo de 17 mortos.

Um dos maiores especialistas do Brasil no tema, o médico psiquiatra, psicanalista e professor da Fundação Oswaldo Cruz, Carlos Estellita Lins, defende que esta curva de crescimento tem uma relação muito forte com o impacto da onipresença da internet junto aos jovens, segundo ele, a pessoa fica vivendo em um ambiente virtual, que leva a um maior afastamento, a depressão, ao isolamento, além da facilidade que a internet proporciona do acesso sobre as informações do suicídio, métodos e formas de fazê-lo, ainda ocorrendo a banalização do ato e o aconselhamento que beira o convencimento para atentar contra a própria vida.

As Redes Digitais são, sem sombra de dúvidas, um milagre dos nossos dias, nos propiciando o acesso a todas as informações, o encurtamento das distâncias e poderiam ser melhor utilizadas para prevenir vários males da sociedade moderna, entre eles o suicídio, mas para isso, seria necessário que os organismos de saúde criassem protocolos médicos e psicológicos para serem trabalhados na internet, além de ampliarem a discussão e o alcance das informações sobre o tema. Portanto as Redes Digitais poderiam ser melhor utilizadas pelos organismos constituídos para divulgar a boa informação, para acalentar de maneira adequada o sofrimento de cada qual e com um conjunto de atitudes, utilizar este importante meio de comunicação para prevenir este mal. Claro que, o controle do conteúdo inserido nas Redes Digitais seria fundamental, mas até que ponto isso é possível? Conquanto isso não acontece, os psicopatas virtuais continuam a se utilizar deste veículo poderoso para invadir nossos lares e atentar contra a vida de nossos filhos.

O papel dos pais também é fundamental, seja ao conversar abertamente com seus filhos, sem reprimendas, os conquistando como amigos e confidentes, mas também sabendo ditar limites e estando sempre atentos as mudanças de comportamento, além de observar e de certa forma controlar a imersão de seus filhos nas Redes Digitais.

Perante o estudo que tenho feito, estou solidamente convencido que as Redes Digitais e a Sociedade em que Vivemos, retratada em sua perversidade, especialmente através do bullying (lembrando que o bullying também pode ocorrer virtualmente), estão diretamente relacionados com esta curva de crescimento apresentada nos últimos anos no suicídio de jovens, entretanto até que ponto apenas as Redes Digitais ou o Bullying podem levar a este ato?

Os especialistas citam um perfil de fragilidade emocional e/ou uma doença psicossocial existente como fator predisponente, o qual poderíamos conotar como “fator de vulnerabilidade”, será?

Na próxima terça-feira, na conclusão deste artigo, estarei desvendando junto com você, a real causa deste “mal dos nossos tempos”.

Vem comigo!!!



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