Este artigo tem a
intenção de contribuir com informações e se prestar a um alerta sobre esta
causa de mortandade de nossas crianças e adolescentes que ainda é um tabu e
pouco estudada portanto no mundo e em especial no Brasil, mas que como
contextualizarei, apresenta curva crescente nos últimos anos e com o ingresso
do fator predisponente exercido pela “Era Digital”, pode rapidamente chegar a
uma situação de descontrole.
Todas as informações
aqui prestadas, foram colhidas de artigos médicos disponibilizados nas bases de
dados: PubMed e Psycinfo, também de dados do Ministério da Saúde, Organização
Mundial da Saúde (organismo ligado a ONU), entre outros. Sempre tomando o
cuidado da certificação de tudo que venha a ser publicado, aliás precaução que
tenho em todas as publicações desta coluna.
Em 2014 a
Organização Mundial da Saúde (OMS), publicou o primeiro relatório sobre
suicídio no mundo: “Prevenção do suicídio: uma necessidade global”, ali
encontramos indicadores relevantes como o levantamento, segundo o qual mais de
800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo, sendo o suicídio a
principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
A mesma OMS já havia
publicado um estudo epidemiológico conduzido em 101 países no período entre
2000 e 2009 onde constatou que 14,7% dos suicídios envolvem crianças na faixa
etária de 10 a 14 anos. Destes, 74% morreram por enforcamento e 13% por arma de
fogo.
Anteriormente, em
2003, a Associação Internacional para Prevenção do Suicídio e a Organização
Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), instituíram o
dia 10 de setembro como dia Mundial para Prevenção do Suicídio.
Na Noruega uma
pesquisa realizada por organismos sanitários do país, revelou que o suicídio
corresponde a 61% das mortes por causas externas em crianças com idade entre 10
e 14 anos. Na Austrália, o suicídio corresponde a segunda causa morte (27,2%)
em crianças entre 10 e 14 anos. Nos Estados Unidos, segundo o Centro de
Controle de Prevenção de Doenças (CDC), uma agência do Departamento de Saúde e
Serviços Humanos, o suicídio é a terceira causa de mortes entre jovens nesta
faixa etária.
No Brasil, dados do
Mapa da Violência, organizado pelo Ministério da Saúde, mostram que o suicídio
entre crianças e adolescentes de 10 a 14 anos aumentou em 40% e de 15 a 19 anos
em 33,5% entre 2002 e 2012.
Portanto, podemos perceber
que o suicídio é causa de um alto grau de mortandade de crianças e adolescentes,
mesmo em países mais desenvolvidos, mostrando que as causas sociais precisam
ser bastante estudadas e que em alguns países pode haver relação com questões
culturais (por exemplo, em sociedades patriarcais como o Japão, país que
apresenta índices bastante significativos), além é claro de patologias
psicossociais, da própria sociedade moderna que apresenta o estigma da
perversidade no trato com o ser humano (como exemplo, pode ser citado o bullying
ou a abordagem sensacionista de parte da imprensa) e certamente carece de um estudo
profundo sobre as influências da “Era Digital”.
Segundo o Dr. Brian
Michara, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Quebec, em
Montreal – Canadá, crianças com idade entre 05 e 11 anos possuem entendimento
minucioso sobre suicídio, dos 08 aos 09 anos conseguem elaborar conceitos de
vida e morte, embora ainda sejam um pouco imaturos.
Já o professor da
Fundação Oswaldo Cruz, Carlos Estellita Lins, médico psiquiatra e psicanalista,
um dos maiores especialistas do Brasil em psiquiatria da infância e
adolescência, relata que com 09 anos já existem dados sobre suicídio e a partir
dos 12 anos, estes dados já são bastante significativos, ainda segundo o
professor Estellita, no caso da criança e do adolescente, existem situações de
violência da sociedade, onde se enquadra o bullying e ele justifica uma curva
de elevação ocorrida nos últimos anos pela digitalização da sociedade, a
virtualização, a qual propõe vantagens, mas cada vez se observa mais perdas e malefícios
que ainda estão sendo estudados. Conforme o professor: “Notamos o impacto da
onipresença da internet junto à criança e ao adolescente, a gente discute se há
síndromes e distúrbios novos, a pessoa fica vivendo no mundo virtual, levando a
um maior afastamento, a depressão, ao isolamento, além da internet facilitar o
acesso sobre informações de suicídio e isto é muito preocupante, porque o
conhecimento dos meios é buscado por quem pode estar com ideação suicida. Outro
aspecto são ambientes virtuais onde se pode falar tudo, exortar o jovem a
falar, onde de modo inconsequente, protegido pelo anonimato a pessoa exorta o
suicídio, dá conselhos, banaliza.”
Segundo pesquisa
feita a partir de dados do Centro de Informações Toxicológicas (CIT) – RS,
entre 2005 e 2012, neste período 4.658 crianças e adolescentes (08 a 17 anos)
tentaram o suicídio, neste caso por autointoxicação, sendo:
·
Sexo:
meninos 17,3% e meninas 80,7%;
·
Idade:
08 a 11 anos, 2,83%, 12 a 14 anos 28,81% e 15 a 17 anos 63,35%;
·
Momento:
mês de outubro (predominante com 10,1%);
·
Dia
da semana: terça-feira (predominante com 15,1%);
·
Hora:
entre 18:00h e 21:00h (predominante com 29,46%).
Esta mesma pesquisa
identifica que entre 2005 e 2012 houve uma curva crescente de 40,8%. Relevante
citar, que pesquisas desta mesma época em escolas de Porto Alegre mostraram que
36% dos estudantes, nesta faixa etária, tinham “ideação suicida”.
Perante o exposto
aqui, com base nas pesquisas apresentadas, podemos contextualizar algumas
conclusões: com 08 anos a criança já tem noção da morte e portanto, já pode
tentar o suicídio; com 12 anos está completo o amadurecimento sobre as
instâncias de vida e morte; estranhamente, alguns países com alto índice de
desenvolvimento apresentam igualmente alto índice de suicídio nesta faixa
etária; este tema é norteado por preconceito e claramente é um tabu, tanto no
mundo quanto no Brasil, talvez em função disto haja tanta carência de pesquisas
e informações idôneas a respeito; existe claramente uma curva de crescimento do
suicídio nesta faixa etária e isto não está relacionado apenas a incidência de
patologias psicossociais, desarranjos escolares ou familiares, entre outras
causas convencionais, mas sim a questões relacionadas a uma sociedade revestida
com o viés da perversidade a qual convivemos e grandemente pela invasão de
nossos lares pela “Era Digital”.
Na segunda parte deste artigo, continuarei a desvendar este tema
tão complexo e tão distante do conhecimento da população como um todo,
abordando motivos, como agir com seus filhos, a sociedade em que vivemos com
seus malefícios e a parte perversa da “Era Digital”.
Vem comigo!!!
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